'Brega? Adoro dizer que gosto'
Entrevista com Wagner Moura. Ator e (cada vez mais) cantor

Assim que o carnaval chegava a Salvador, Wagner Moura sumia da Bahia. Meninão, 15 anos, ele queria era saber do rock taciturno dos Smiths e do Cure. Axé music era seu martírio. Com os amigos, também sufocados, foi para uma garagem e criou a desforra, uma banda chamada Sua Mãe. Dezoito anos depois, Wagner, entre um e outro Capitão Nascimento, ainda é integrante do grupo. Música nunca foi seu ganha-pão, como não é de nenhum de seus amigos jornalistas, mas é fato que a brincadeira ficou séria. Sua Mãe toca hoje e no próximo sábado, a partir da 1 h da manhã, no Stúdio SP, para lançar o primeiro disco, The Very Best of Greatest Hits, com um punhado de canções próprias criadas em algum vácuo aberto entre a música popular romântica chamada brega e os expoentes do rock inglês dos anos 80. Estranho? Wagner pode responder.


Você falava sempre que a banda Sua Mãe era uma brincadeira. Ficou grande isso, não?


É uma brincadeira, mas uma brincadeira de 18 anos. Depois que fizemos um programa no Multishow, passamos a ser muito solicitados para fazer shows.


Alguma música do disco é de sua autoria?


Olha, tem uma minha chamada Clóvis, que fiz em 1992. A letra e a música são minhas.


E ela fala sobre o quê?

Ah, não sei. Não sei dizer do que fala a música. Caramba, isso vai ficar ridículo no jornal...

Mas Clóvis era quem?

Não tem Clóvis, não conheço nenhum Clóvis, ele não existe. É tudo meio dadaísta, é como você ouvir uma música de Carlinhos Brown.

E como é a letra?

Ela diz: "Rupinol..." Rupinol é o seguinte: em Salvador existia uma bebida que era vendida pelas ruas chamada Ligante. Era uma bebida ótima, feita com leite condensado, mas com teor alcoólico elevadíssimo. E havia alguns vendedores que "batizavam" esse Ligante com o Rupinol (medicação para tratamento psiquiátrico). Então a música diz "Rupinol no Ligante faz mal. E para quem não sabe beber, é baixo-astral."

Isso até faz sentido...


É, para quem sabe o que é Rupinol (risos).


Você criou uma banda de rock com 15 anos na Bahia porque não gostava da axé music?

Eu saía de Salvador no carnaval, não gostava. Agora até entendo que gera emprego, que se trata de uma manifestação. Mas naquela época... Me pergunto hoje por que eu fui gostar de rock inglês, que é tão triste. Talvez seja o fato de se tratar ali de um adolescente revoltado que queria se opor àquilo tudo.

Você baixa músicas da internet?

Eu fiquei para trás. Não sei baixar músicas, não sei mexer em computador, não sei a cara do Twitter, estou fora desse mundo. Me sinto menos acessível assim, gosto disso, mas sinto falta das ferramentas.

Então você compra discos.

Eu sou uma das sete últimas pessoas do mundo que compram discos. Gosto das capas, de ter a sequência das músicas. Olha, comprei há pouco um negócio daqueles de tocar LPs, como se chama? Vitrola. Paguei US$ 120, pequenininha...

Uma Sonata?

Isso! É linda, trouxe na mão de Los Angeles.

E os discos? O que escuta?

Fiquei maluco quando ouvi o OK Computer, do Radiohead. Agora, daqui gosto muito do Cidadão Instigado, acho o guitarrista Fernando Catatau o grande nome da música brasileira.

É mesmo? Mas por quê?

Ah, a estética do grupo Cidadão Instigado, psicodélica, e quando ele toca a guitarra você sabe que é ele, o gosto que ele também tem pelo Roberto Carlos, por "música de puteiro". Acho o Uhuuu! (CD do Cidadão) o melhor disco de rock brasileiro.

Você não tem problemas ao dizer que gosta de música brega? Não sente o patrulhamento?

Vou te contar um prazer secreto, agora explícito, já que estou te contando. Eu adoro dizer que gosto disso (música brega). Sinto um preconceito muito grande por parte da imprensa, da crítica, com relação a isso. E gosto de artistas que valorizam essas músicas. O Caetano faz isso, o próprio Catatau.

Mas é só na imprensa que acontece isso? Você chega a uma reunião com atores e diretores de cinema dizendo que Reginaldo Rossi é...


É do c.... Reginaldo Rossi é demais. Vou mandar fazer uma camisa com isso (risos). Digo sim. Eu sinto mais preconceito mesmo por parte da imprensa. Quando fui fazer Hamlet, as críticas diziam que a plateia não entendia nada. Isso me dá agonia, essa elitização do gosto. Não gosto de fazer nada cabeça, inacessível, faço para a galera. E isso não significa baratear o meu trabalho. O disco mesmo da banda Sua Mãe vai ser muito criticado.


Por quê?

Primeiro pelas referências que fazemos aos compositores - Marcio Greick, Reginaldo Rossi, Odair José, Amado Batista. E, depois, pelo fato de ser eu cantando, um ator que está se metendo a cantar.

Em música sempre falamos da "síndrome do segundo disco". Quando um vai bem, é muito difícil que o artista faça o segundo tão bom quanto. E no cinema? Tropa de Elite 2, que deve estrear em 3 de setembro, pode sofrer da "síndrome do segundo filme"?


Cinema é aquilo, o ator perde o controle. A gente vai lá e dá o melhor, mas aí o filme vai ser montado, editado, dublado, e seja o que Deus quiser. Apesar de que neste Tropa 2 eu fui o produtor associado, o que me deu maior liberdade. Não acho que corremos esse perigo, não. O roteiro foi bem desenhado, não será uma tentativa de repetir o primeiro filme. Não vai ser na cola do outro.


Já usou música para se inspirar antes de uma peça ou de gravar uma cena?

Já usei isso no teatro. Era uma peça em Salvador, eu tinha de entrar no meio da montagem com uma voltagem emocional altíssima, chorando. Então ficava lá atrás ouvindo a música do filme Cinema Paradiso e começava a chorar antes mesmo de entrar em cena. Quando subia ao palco já tinha secado tudo (risos).

O escritor Nick Hornby diz que podemos conhecer o caráter das pessoas olhando em suas estantes de CDs. Concorda com isso?


Ah, pode ser. Talvez ele tenha razão. Mas, sei lá. A gente pode se enganar muito também.


Fonte: Estadão