Sua Mãe no Teatro Odisséia (RJ)



Sua Mãe sacou um negócio que eu não saquei em cima do lance. A década de 80 foi brega. Não estou falando de ombreira, mullet ou ursinho blau-blau, que isso até é covardia. Nem falo de características formais e sim da exacerbação dramática que caracteriza este tipo tão vilipendiado de música. Parte da turma que eu na hora julgava puro intelecto era mesmo chegada ao exagero. Ou alguém aqui escuta contenção em “e se um caminhão de 10 toneladas matar nós dois, morrer do seu lado seria meu prazer e privilégio”? Ninguém ali jamais desconfiou da maquiagem borrada do Robert Smith? Ninguém lá nunca estranhou que Renato Russo quisesse gravar algo dos Menudos? Sua Mãe aguça-nos esses sentidos.

Tudo começou, como tantas coisas, na hora do recreio. Em 1992, Wagner Moura e Gabriel Carvalho eram colegas de Ensino Médio em Salvador. Na cidade afogada pelo axé, a onda deles era o rock inglês da década anterior. Troço ou deprimido ou atormentado, tipo Smiths, The Cure, U2. Os dois fundaram uma banda que, como tantas, não durou muito. Pouco depois, na Faculdade de Comunicação da UFBA, o vocalista e o multinstrumentista rejuntaram a casa com outros futuros jornalistas – o baterista Leco, o baixista Sérgio Brito, o violonista Claudinho Chacha – e um contador – o guitarrista Ede Marcus. (Mais tarde entrou o tecladista Tangre.) Sua Mãe então era quase uma banda cover do Cure.

“Quase” porque o gosto pelo rock inglês era apenas metade da história, e é aí que está o barato da coisa. O pessoal também curtia Reginaldo Rossi, Amado Batista, Márcio Greyck, Odair José e, last but not least, Roberto Carlos. Era a música que os pais de Wagner, por exemplo, ouviam no interior da Bahia. Era a música que, de certa forma, começara a sua educação sentimental. Os ingleses a completaram. Tudo fazia parte, então, de um mesmo processo, de um mesmo universo poético. Assim, “agora entendo como se sente um uísque 12 anos a esperar os lábios molhados,” primeiros versos de Vanessa e o véu, primeira música deste The very best of the greatest hits de Sua Mãe, ecoam “agora eu sei como Joana D’Arc se sentiu quando seu walkman começou a derreter”, saca Smiths?

O CD se chama The very best of the greatest hits, aliás, porque as suas 11 músicas foram garimpadas nestes dezessete anos de carreira intermitente. Todos os membros de Sua Mãe ganham a vida alhures. No entanto, eles são “músicos amadores” apenas no sentido de realmente amarem a música que tocam. E bem. “Não gosto do termo brega, prefiro música superpopular brasileira”, diz Wagner. “Nunca quis que fosse paródia. Sabe classe média fazendo música de porteiro? Não.” Logo, é com reverência que os caras se aproximam dos geógrafos da alma do povo. A única versão do disco é para um sucesso de Reginaldo Rossi, Na hora do Adeus. A do “saí da sua vida, eu só representava um cheque no final do mês, você não respeitava o homem que te amou demais, abusou de mim, me passou para trás”.

O fato de Wagner ser o baita ator que é ajuda pacas na hora de passar a verdade dessas letras, de peito aberto, sem medo. Porque ao menos desde a bossa nova, o “bom gosto” reinante na música brasileira passou a ser o da estilização da emoção. Sua Mãe não tem nada a ver com isso. Sua Mãe usa o peso das guitarras e a batida pós-punk – e, no disco, uma seção de sopros que ora lembra os Bálcãs ora lembra Los Hermanos – para dizer umas verdades, assim, na lata, sem perder o senso de humor. No rock brasileiro nascido nos anos 80, as referências mais claras são os Titãs da primeira fase e o Cazuza mais exagerado.

Daí Wagner ter carta branca para cantar “caía a tarde e ninguém me ligava, nove quatro zero meia, duas terças três oitavas, os números embaralhados, meu prefixo é solidão” (Prefixo solidão). Ou ainda “meu bem, desculpas para quê se eu nem te liguei, como pude esquecer o seu aniversário, o seu presente, que todo mundo te deu, menos eu, uma ligação, uma mensagem, um recado no Orkut” (Desculpas para quê). Daí Sua Mãe se entregar às músicas como Ian Curtis tentando alcançar o remédio para epilepsia. Daí Wagner dizer que quer vender disco independente nas Lojas Americanas.

Serviço

Início: 21:00
Ingressos: R$ 30 (antecipado), R$ 40


Fonte: Teatro Odisséia